Reciclagem de placas solares: o que a lei manda e onde descartar
Placa solar de uso doméstico está na lista de logística reversa de eletroeletrônicos desde 2020. Veja do que ela é feita, quanto se recupera e o caminho do descarte.
Placa solar tem reciclagem e não vai para o lixo comum. O Decreto 10.240/2020, que regulamenta a logística reversa de eletroeletrônicos de uso doméstico da Política Nacional de Resíduos Sólidos, inclui o “painel fotovoltaico” na lista de produtos do sistema. Quem usa a placa em casa deve entregá-la num ponto de recebimento, e fabricantes e importadores respondem pelo destino dela. Em peso, uma placa de silício típica é cerca de 76% vidro, 10% plástico e 8% alumínio, segundo o relatório da IRENA com a agência de energia IEA-PVPS.
Na prática, poucas placas brasileiras chegaram ao fim da vida, porque a maior parte foi instalada nos últimos anos e elas duram décadas. Abaixo, do que a placa é feita, o que a lei manda, o que fazer com uma placa quebrada ou antiga e o volume de descarte esperado para o Brasil.
Do que uma placa solar é feita
O relatório “End-of-Life Management: Solar Photovoltaic Panels”, de 2016, da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) com o programa de sistemas fotovoltaicos da Agência Internacional de Energia (IEA-PVPS), dá a composição típica em peso de uma placa de silício cristalino:
| Material | Participação no peso | Onde fica na placa |
|---|---|---|
| Vidro | cerca de 76% | Superfície da frente |
| Polímeros | cerca de 10% | Encapsulante e película de fundo |
| Alumínio | cerca de 8% | Principalmente a moldura |
| Silício | cerca de 5% | As células |
| Cobre | cerca de 1% | Interligações |
| Prata e outros metais | menos de 0,1%, somando a prata e outros metais, principalmente estanho e chumbo | Contatos das células e soldas |
A mesma fonte diz que mais de 90% dessas placas é vidro, polímero e alumínio, classificados como resíduo não perigoso. O restante inclui materiais perigosos em pequena quantidade, como traços de chumbo e estanho, além da prata. É por isso que placa não pode ir para o lixo comum nem para o entulho.
A composição muda com o modelo. Há placas modernas com vidro nos dois lados, como o CS6W da Canadian Solar, que tem vidro de 2,0 mm na frente e no verso e pesa 31,6 kg; nelas, a proporção de cada material não é a mesma da placa típica de 2016.
O que a lei manda
A lista de produtos
A Lei 12.305/2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, obriga fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de “produtos eletroeletrônicos e seus componentes” a estruturar a logística reversa, ou seja, o retorno do produto depois do uso (art. 33, VI).
O Decreto 10.240/2020 regulamenta essa obrigação para os eletroeletrônicos de uso doméstico. O Anexo I do decreto, com a relação de produtos do sistema, traz “painel fotovoltaico” entre a omeleteira e a panela de arroz, e também a string box. O próprio anexo diz que a lista não é exaustiva e pode crescer.
Uso doméstico, e não usina
O decreto vale para o uso “próprio ou pessoal, residencial ou familiar, exclusivamente por pessoa física” (art. 3º, XVII). Ficam de fora os produtos de uso corporativo, industrial ou comercial por empresa e os grandes volumes de grandes geradores de resíduos (art. 5º). A placa do telhado de casa se encaixa; a de uma usina comercial segue outras regras.
O papel do consumidor
O art. 31 lista três obrigações de quem descarta:
- separar o eletroeletrônico dos outros resíduos, para preservar a integridade dele e evitar riscos à saúde e ao ambiente;
- apagar os dados pessoais dos aparelhos que guardam informações;
- descartar o produto desligado, nos pontos de recebimento do sistema de logística reversa.
O consumidor não recebe nada pela entrega, exceto se a empresa ou a entidade gestora criar algum incentivo (art. 11).
Onde descartar uma placa
O SINIR, sistema do governo federal sobre resíduos sólidos, indica consultar os pontos de coleta das entidades gestoras de eletroeletrônicos, a Abree e a Green Eletron. O decreto manda cada município atendido ter pelo menos um ponto de recebimento a cada 25 mil habitantes (art. 48, § 2º).
Uma placa, porém, não é um celular. Um módulo como o CS6W mede 2,28 m por 1,13 m e pesa 31,6 kg. Antes de levar, ligue para o ponto e pergunte se ele aceita esse tamanho e esse peso.
Outros caminhos que valem uma ligação:
- a empresa que instalou o sistema, que muitas vezes faz a troca e leva a placa velha;
- o fabricante ou o importador da marca, que pelo decreto responde pela destinação;
- o serviço municipal de coleta de eletroeletrônicos, se houver.
Guarde a nota fiscal do sistema. Ela identifica o fabricante e ajuda em qualquer desses caminhos.
Tirar a placa do telhado não é tarefa de morador
Uma placa gera tensão sempre que recebe luz, mesmo desligada do inversor. O manual da Canadian Solar avisa que a tensão e a corrente de um arranjo durante o dia bastam para causar choque fatal, e que placas trincadas ou quebradas têm risco de choque por corrente de fuga.
A retirada, o transporte até o chão e a desconexão dos cabos são trabalho da empresa instaladora ou de eletricista habilitado. O mesmo vale para a string box, que também está na lista do decreto, e para o inversor. Para devolver o inversor, pergunte ao fabricante qual é o caminho.
Placa quebrada, antiga ou só mais fraca
Quebrou dentro da garantia
Se o defeito é de fabricação, o caminho é a garantia, não o descarte. A de desempenho costuma ir a 25 ou 30 anos, como mostra placa solar dura quantos anos. Dano por granizo, raio ou quebra acidental costuma ficar fora da garantia e entra no seguro; veja placa solar aguenta granizo.
Ficou antiga, mas ainda gera
Placa velha perde potência aos poucos e continua gerando. O relatório da IRENA aponta que placas reparadas podem ser revendidas a preço menor e que mesmo componentes de placas parcialmente reparadas encontram compradores num mercado de segunda mão. Antes de descartar uma placa que só está mais fraca, vale perguntar ao instalador se ela serve para outro uso, como um sistema pequeno fora da rede.
Um alerta: placa usada não vem com a garantia de fábrica. A declaração de garantia da Canadian Solar, por exemplo, só vale enquanto o produto permanece no local original de instalação.
A bateria tem caminho próprio
Pilhas e baterias têm logística reversa separada na Lei 12.305 (art. 33, II), e o Decreto 10.240 exclui as baterias removíveis do seu sistema (art. 5º, III). Se o seu sistema tem bateria, pergunte ao fabricante dela como devolver. Veja também bateria para energia solar.
Quanto se recupera na reciclagem
A IRENA relata que a reciclagem de placas ainda era feita em lotes dentro de usinas de reciclagem geral, e que vidro, alumínio e cobre de placas de silício podem ser recuperados com rendimento acumulado acima de 85% do peso da placa. No cenário de valor que o relatório calcula, a taxa usada é de 65% a 70% do peso, com coleta de 85%, alinhada à única regra específica para placas em vigor na época, a diretiva europeia de resíduos eletroeletrônicos.
O relatório também descreve um método físico usado em pesquisas na China, com trituração e separação, que recicla cerca de 90% do peso, mas não recupera o silício com pureza suficiente para voltar à indústria solar.
Na prática, o vidro, a moldura de alumínio e o cobre são as partes mais fáceis de aproveitar. O silício e a prata, que valem mais por quilo, exigem processos mais complexos.
Quanto lixo solar o Brasil vai ter
A projeção da IRENA, feita em 2016, estima o acúmulo de placas descartadas em dois cenários: os dois assumem vida útil média de 30 anos, mas o primeiro exclui as falhas precoces e o segundo as inclui.
| Ano | Brasil, sem falhas precoces | Brasil, com falhas precoces | Mundo, com falhas precoces |
|---|---|---|---|
| 2030 | 2.500 t | 8.500 t | 8 milhões de t |
| 2040 | 18.000 t | 160.000 t | 32 milhões de t |
| 2050 | 300.000 t | 750.000 t | 78 milhões de t |
A projeção usa a expectativa de instalação de 2016. O Brasil instalou muito mais energia solar desde então, então esses números servem para mostrar a escala e a curva, não para prever a quantidade exata. O crescimento está em energia solar no Brasil.
Para dar uma ideia do volume de uma casa: um sistema com 10 placas como o CS6W soma 10 × 31,6 kg = 316 kg de módulos, sem contar estrutura, cabos e inversor.
E a conta de luz?
A reciclagem não mexe na conta, mas a troca de uma placa sim. Cada placa de 585 W parada no Sudeste deixa de gerar cerca de 71,2 kWh por mês (0,585 kWp × 5,07 kWh/m² por dia do Atlas do INPE × 0,80 de taxa de desempenho × 30 dias). Com o kWh a R$ 0,80, a mediana residencial das distribuidoras sem tributos, com dados da ANEEL consultados em 28/09/2026 (veja tarifas), são R$ 56,95 por mês. Por isso vale trocar logo a placa danificada, em vez de deixá-la parada no telhado. Para medir o peso da geração no seu consumo, use a calculadora.
Perguntas frequentes
Posso jogar placa solar no lixo comum ou no entulho?
Não. Placa de uso doméstico está no Anexo I do Decreto 10.240/2020, e o consumidor deve entregá-la nos pontos de recebimento do sistema de logística reversa.
Placa solar é lixo tóxico?
A maior parte do peso é vidro, polímero e alumínio, classificados pela IRENA como não perigosos. Mas a placa tem traços de chumbo e estanho, além de prata, e precisa de tratamento adequado.
Quem paga pela reciclagem?
O decreto põe a estruturação do sistema a cargo de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, e diz que o consumidor não é remunerado pela entrega. A retirada do telhado, feita por uma empresa, é um serviço à parte.
Vendi a casa. O que acontece com as placas?
Elas ficam com o imóvel e com o novo dono. A garantia da Canadian Solar, por exemplo, pode ser transferida para quem passa a ser dono dos produtos, desde que eles continuem no local original.
Fontes: Planalto, Decreto nº 10.240/2020, Planalto, Lei nº 12.305/2010, SINIR, logística reversa de eletroeletrônicos, IRENA e IEA-PVPS, End-of-Life Management: Solar Photovoltaic Panels (2016), Green Eletron, Canadian Solar, ficha técnica TOPBiHiKu6 CS6W-TB-AG, Canadian Solar, declaração de garantia dos módulos TOPBiHiKu, v2.0, Canadian Solar, manual de instalação de módulos, v3.3, INPE, Atlas Brasileiro de Energia Solar, 2ª edição e ANEEL, dados abertos de tarifas das distribuidoras.