Aterramento elétrico: para que serve e por que a casa precisa dele

O aterramento dá à corrente de defeito um caminho que não passa pelo seu corpo. Veja o que a Lei 11.337 exige, os erros comuns e se ele muda a conta de luz.

O aterramento elétrico serve para dar à corrente um caminho seguro até a terra quando algo dá errado, por exemplo quando a carcaça metálica de uma máquina de lavar fica energizada por defeito. Sem esse caminho, quem encosta no aparelho vira o caminho. É o fio terra, verde ou verde e amarelo, e desde 2006 a Lei nº 11.337 exige sistema de aterramento nas edificações novas.

O aterramento não reduz a conta de luz, mas é a base de outras proteções da casa: o DR, que corta o circuito numa fuga, e o DPS, que escoa surtos. A seguir, como ele protege, o que a lei manda, por que tomada de três pinos não prova nada e quando chamar um eletricista.

O que é o aterramento

É um condutor próprio, separado da fase e do neutro, que liga as carcaças dos aparelhos e o terceiro furo das tomadas a um sistema enterrado no solo. A Lorenzetti, ao explicar a instalação dos seus chuveiros, descreve o fio terra como o “fio verde ou verde/amarelo”, que deve ser conectado a um sistema de aterramento conforme a norma brasileira de instalações, a NBR 5410, e recomenda que esse serviço seja feito por pessoas qualificadas.

Em funcionamento normal, o fio terra não carrega corrente. Ele trabalha só quando há defeito ou surto.

Como ele evita o choque

O choque acontece quando a corrente encontra um caminho pelo corpo. O Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (CBMDF) explica que isso se deve à diferença de potencial entre a fase e a terra, que está a 0 V. Numa casa, a fase fica a 127 V ou 220 V. Se a pessoa toca uma parte energizada e está em contato com o chão, a corrente atravessa o corpo até a terra.

Imagine a carcaça de uma máquina de lavar que ficou energizada por um fio danificado dentro dela:

  • Com aterramento, a corrente escoa pelo fio terra, que oferece um caminho muito mais fácil do que o corpo. E, se houver DR no circuito, ele percebe a fuga e desliga.
  • Sem aterramento, a carcaça fica com tensão, esperando alguém encostar.

Para ter ideia da ordem de grandeza, o CBMDF usa em seus ensaios a informação de que a resistência do corpo humano “pode chegar a 3000 ohms”. Pela lei de Ohm (corrente = tensão ÷ resistência):

Tensão da fase Resistência do corpo Corrente pelo corpo
127 V 3.000 Ω cerca de 42 mA
220 V 3.000 Ω cerca de 73 mA

A Schneider Electric aponta 30 mA como o limite a partir do qual, num choque, a pessoa “já corre risco de vida”. As duas correntes da tabela passam disso. A resistência real varia muito com pele úmida, calçado e piso, e a conta serve só para mostrar a escala. O que é corrente e por que ela, e não a tensão sozinha, faz o estrago, está em corrente elétrica: o que é.

O que a lei exige

A Lei nº 11.337, de 26 de julho de 2006, tem dois artigos centrais:

  • Art. 1º. As edificações cuja construção comece a partir da vigência da lei devem ter sistema de aterramento, instalações compatíveis com o condutor-terra de proteção e tomadas com o terceiro contato.
  • Art. 2º, com a redação dada pela Lei nº 12.119, de 2009. Os aparelhos elétricos e eletrônicos com carcaça metálica vendidos no país e enquadrados na classe I devem ter condutor terra de proteção e o plugue correspondente, a partir de 1º de janeiro de 2010.

A lei entrou em vigor 90 dias após a publicação. Na prática, prédios mais antigos podem ter sido construídos sem aterramento, e aparelhos de carcaça metálica da classe I vendidos hoje saem de fábrica com o plugue de três pinos por causa dela.

Tomada de três pinos não prova que há aterramento

O terceiro furo pode estar lá sem nada ligado atrás. Isso é comum quando se troca uma tomada antiga pela do padrão atual sem refazer a fiação. Olhando de fora, não dá para saber.

Sinais que pedem avaliação:

  • formigamento ao tocar a carcaça da geladeira, da máquina de lavar ou do micro-ondas;
  • choque leve no registro ou no chuveiro, assunto de choque no chuveiro: o que fazer;
  • casa construída antes de 2006 sem reforma elétrica;
  • DR que desarma sem motivo aparente.

Se sentir choque ou formigamento, desligue o disjuntor daquele circuito, não use o aparelho e chame um eletricista habilitado. Ele mede o aterramento com instrumento próprio. Não é algo para testar com o próprio corpo, nem com improvisos.

Erros comuns que anulam a proteção

Ligar o fio terra no neutro. A Lorenzetti orienta a não usar o neutro como aterramento: numa sobrecarga da rede, como a causada por um raio, o neutro pode ficar carregado e queimar os aparelhos ligados a ele.

Cortar o pino terra ou usar adaptador que o elimina. O plugue passa a caber na tomada antiga, e o aparelho classe I perde a proteção que a lei exigiu dele.

Achar que DR ou DPS substituem o terra. Eles dependem do aterramento para funcionar por completo, como mostra a próxima seção.

Deixar o chuveiro sem fio terra. O chuveiro combina água, metal e alta potência. A Lorenzetti orienta ligar o fio terra dele a um sistema de aterramento justamente para evitar choques.

Aterramento, DR e DPS: quem faz o quê

Dispositivo O que faz Relação com o aterramento
Aterramento Oferece o caminho até a terra É a base
DR de 30 mA Desliga o circuito ao detectar fuga de corrente acima de 30 mA Com terra, a fuga pela carcaça aparece e ele desarma antes de alguém tocar
DPS de quadro Desvia surtos de tensão A Schneider descreve o DPS de quadro ligado ao sistema de aterramento, para onde ele escoa o surto
Disjuntor Protege fios contra sobrecarga e curto Funciona sem terra, mas não protege pessoas

A explicação completa do DR está em disjuntor DR: o que é, e a do DPS em protetor de surto (DPS). Por que o disjuntor comum cai está em disjuntor desarmando: causas.

Aterramento muda a conta de luz?

Não diretamente. O medidor registra a energia que os aparelhos consomem, e o fio terra não muda a potência de nenhum deles. Um chuveiro de 5.500 W gasta o mesmo com ou sem aterramento.

A ligação com a conta é indireta. Quando um aparelho tem fuga de corrente, parte da energia escapa pela carcaça e é paga sem fazer nada útil. O CBMDF observa que o DR, ao detectar a fuga para a terra, também diminui o desperdício. Com aterramento e DR, a fuga aparece e é corrigida; sem eles, pode passar despercebida por meses. Como uma fuga pesa na conta está em fuga de corrente e consumo alto.

Se a conta subiu sem explicação, primeiro some o consumo dos aparelhos com a calculadora e compare com os kWh da fatura, como mostra o guia conta de luz alta: o que conferir.

Quando chamar um eletricista

  • Para verificar se a casa tem aterramento de fato, principalmente se é anterior a 2006.
  • Antes de instalar chuveiro, ar-condicionado, torneira elétrica ou carregador de carro elétrico.
  • Se houver formigamento, choque, cheiro de queimado ou DR desarmando com frequência.
  • Ao reformar a parte elétrica, para que o aterramento seja feito segundo a NBR 5410.

O serviço envolve o quadro, as hastes no solo e a fiação. Não é trabalho para fazer por conta própria.

Perguntas frequentes

Posso ligar o fio terra no neutro?

Não. A Lorenzetti orienta expressamente a não usar o neutro como aterramento, porque ele pode ficar carregado numa sobrecarga da rede e queimar os aparelhos.

Toda casa é obrigada a ter aterramento?

A Lei nº 11.337/2006 obriga as edificações cuja construção começou depois que ela entrou em vigor. Para imóveis mais antigos, a lei não manda refazer a instalação, mas o risco de choque é o mesmo, e vale pedir a avaliação de um eletricista.

Aparelho de dois pinos precisa de aterramento?

A exigência da lei é para aparelhos com carcaça metálica enquadrados na classe I. Aparelhos que já saem de fábrica com dois pinos foram projetados para funcionar assim. O problema é tirar o terceiro pino de quem tem.

Aterramento protege contra raio?

Ele é o caminho por onde o DPS de quadro escoa o surto, então faz parte dessa proteção. Mas sozinho não segura um surto; é preciso o DPS. Para a proteção contra descargas na estrutura do prédio existe o para-raios, que é outro sistema.

Fontes: Planalto, Lei nº 11.337/2006, CBMDF, Estudo Técnico nº 02/2021 sobre o dispositivo DR, Schneider Electric, dispositivos essenciais para segurança elétrica e Lorenzetti, dúvidas frequentes sobre duchas e chuveiros elétricos.