Como economizar energia na cozinha: comece pela geladeira, não pelo fogão

Na cozinha, a geladeira responde por até 39% do consumo da casa e o cozimento por menos de 5%. Veja onde cada mudança rende, em kWh e em reais.

Para economizar energia na cozinha, cuide primeiro da geladeira e do freezer. Pelos dados da EPE para 2019, conservar alimentos respondeu por 26,5% a 39% do consumo elétrico das casas brasileiras, conforme a faixa de renda, enquanto cozinhar com eletricidade ficou entre 1,3% e 4,8%.

Isso não quer dizer que forno, micro-ondas e chaleira não importam. Quer dizer que a ordem das mudanças faz diferença no resultado. Abaixo, a divisão do gasto, a conta de cada escolha e os hábitos que rendem pouco.

Onde a cozinha gasta, segundo a EPE

A Empresa de Pesquisa Energética publicou a participação de cada uso final no consumo residencial de 2019, separada por faixa de renda em salários mínimos (SM). Três linhas da tabela são da cozinha:

Uso final (EPE, 2019) Até 1 SM 3 a 5 SM Mais de 20 SM
Conservação de alimentos 39,0% 33,3% 26,5%
Cocção de alimentos 1,3% 3,9% 4,7%
Preparação de alimentos 0,4% 0,5% 0,4%

Conservação é geladeira e freezer. Cocção é cozinhar com eletricidade: forno, cooktop, micro-ondas. Preparação são os aparelhos pequenos, como liquidificador e batedeira.

Em todas as faixas, a geladeira pesa muitas vezes mais que o resto da cozinha somado. Nas casas de até 1 salário mínimo, a conservação chega a 30 vezes o cozimento elétrico (39,0% contra 1,3%).

O que isso significa na sua conta

Tome uma casa na faixa de 3 a 5 salários mínimos que consome 200 kWh por mês. Os 200 kWh são um exemplo, não um dado da EPE; troque pelo número da sua fatura. Com o kWh a R$ 0,80, a mediana residencial de 98 distribuidoras sem tributos segundo dados da ANEEL consultados em 11/09/2026 (veja as tarifas):

Parte da cozinha Participação kWh por mês R$ por mês
Geladeira e freezer 33,3% 66,6 R$ 53,28
Cozimento elétrico 3,9% 7,8 R$ 6,24
Aparelhos pequenos 0,5% 1,0 R$ 0,80
Cozinha inteira 37,7% 75,4 R$ 60,32

Agora compare duas metas. Reduzir em 10% o consumo da geladeira poupa 6,66 kWh, cerca de R$ 5,33 por mês. Cortar pela metade todo o cozimento elétrico poupa 3,9 kWh, R$ 3,12. A primeira meta é mais modesta e rende mais.

Os valores ficam acima disso na fatura, porque ICMS, PIS e Cofins incidem sobre a energia e a bandeira de setembro de 2026, amarela, soma R$ 0,01885 por kWh. Para outubro de 2026, a ANEEL anunciou bandeira verde, sem adicional.

Geladeira e freezer: a maior fatia da cozinha

A geladeira trabalha 24 horas por dia, então qualquer ganho se repete todo mês. Há três caminhos, em ordem de impacto.

A escolha do aparelho

É onde mora a maior diferença. Dois modelos do mesmo tamanho podem declarar consumos bem diferentes na etiqueta do Inmetro. A comparação por tipo e tamanho está em quanto gasta uma geladeira. Se a sua é antiga, a conta de quando a troca se paga fica em trocar geladeira antiga vale a pena?, e a tecnologia do compressor em geladeira inverter economiza?.

O lugar onde ela fica

A geladeira tira calor de dentro e o solta pela parte de trás ou pelas laterais. Espremida entre armários, encostada no fogão ou sob sol direto, ela tem mais dificuldade para se livrar desse calor, e o motor trabalha mais tempo. O manual do seu modelo informa o espaço livre recomendado. Siga o que ele diz.

O uso diário

Porta aberta por muito tempo, panela quente guardada direto e borracha da porta que não veda aumentam o trabalho do compressor. Quanto isso pesa varia de casa para casa, e sem medir não dá para cravar um número. Um medidor de tomada ligado alguns dias antes e depois de uma mudança mostra o efeito real. As medidas que rendem mais, reunidas, estão em como economizar energia com a geladeira.

Quem tem freezer separado deve olhar para ele com a mesma atenção. O consumo e as diferenças entre modelos estão em quanto gasta um freezer e em freezer horizontal ou vertical.

Reaquecer comida: micro-ondas ou forno

Aqui a escolha do aparelho muda muito o gasto, porque o forno precisa aquecer uma câmara inteira antes de aquecer a comida.

Os dois aparelhos do exemplo têm potência publicada. Na tabela do Inmetro de fornos de micro-ondas, o Britânia BMO23BB, de 20 litros, declara potência nominal de 1.100 W. O forno elétrico Mueller Sapore, de 44 litros, tem 1.800 W segundo o fabricante (900 W na resistência de cima e 900 W na de baixo).

Situação, 2 vezes por dia, 30 dias Tempo por uso kWh por mês R$ por mês
Micro-ondas de 1.100 W 3 min 3,3 R$ 2,64
Forno de 1.800 W 10 min de pré-aquecimento e 10 min de uso 36,0 R$ 28,80

Os tempos são hipóteses para a conta. A potência nominal funciona como teto: o termostato do forno desliga a resistência em alguns momentos depois que a temperatura chega ao ponto, então o gasto real tende a ficar abaixo. Mesmo com essa folga, para esquentar um prato o micro-ondas gasta uma fração do que o forno gasta.

Para assar, a conta muda, porque o preparo é mais longo e o micro-ondas nem sempre serve. A comparação entre forno e air fryer, com receitas pequenas e grandes, está em air fryer ou forno elétrico. O consumo do forno sozinho fica em quanto gasta um forno elétrico.

A eficiência do micro-ondas também entra na conta

Nem todo micro-ondas transforma a mesma parte da energia da tomada em calor na comida. O Inmetro classifica os modelos por essa eficiência: a classe A exige 54% ou mais, a B fica entre 49% e 54%, e a C abaixo de 49%, na tabela atualizada em 31/12/2024.

Na prática, com dois aparelhos, um com 46% de eficiência e outro com 55%, o menos eficiente precisa de cerca de 20% a mais de energia para entregar o mesmo aquecimento (55 dividido por 46 dá 1,196). No exemplo de reaquecer dois pratos por dia, isso transforma 3,3 kWh em uns 3,9 kWh por mês. A diferença é de centavos por mês. Vale como critério de compra, não como motivo para trocar um aparelho que funciona.

O relógio aceso também preocupa muita gente. Quase todos os modelos da tabela do Inmetro declaram menos de 1 Wh por dia em espera, o que dá menos de 0,03 kWh no mês. Mais detalhes em aparelhos em stand-by gastam energia? e em quanto gasta um micro-ondas.

Água quente: aqueça só o que vai usar

Em chaleira, micro-ondas ou cooktop, a energia para esquentar água cresce na proporção da quantidade. Encher a chaleira com 1,5 litro para passar um café que usa 0,5 litro gasta três vezes a energia necessária. Dois terços do que foi aquecido esfriam na chaleira.

O mesmo vale para a panela de macarrão ou de legumes. Tampa na panela e quantidade de água ajustada ao preparo reduzem o tempo de fogo. Quem tem cooktop de indução sente isso direto na conta; quem cozinha a gás, no consumo de gás.

O gasto da chaleira por uso e por mês está em quanto gasta uma chaleira elétrica. Panelas elétricas de arroz e de pressão têm a sua própria conta em quanto gasta uma panela elétrica.

Eletroportáteis, lava-louças e coifa

Liquidificador, batedeira, mixer e sanduicheira têm potência alta, mas funcionam poucos minutos. Por isso somam só 0,4% a 0,5% do consumo nas casas da tabela da EPE. Cortar o uso deles não aparece na fatura. A conta aparelho por aparelho está em eletroportáteis da cozinha: consumo, e a da cafeteira em quanto gasta uma cafeteira.

A lava-louças é diferente, porque aquece água. Programa econômico e máquina cheia fazem diferença, como mostra lava-louças gasta muita energia?. A coifa ou o depurador gasta pouco no motor, mas pode ficar ligado por muito tempo sem necessidade; os números estão em quanto gasta uma coifa.

Horário de uso e tarifa

Na tarifa convencional, o kWh custa o mesmo a qualquer hora, e o horário do jantar não muda a conta. Na tarifa branca, o kWh fica mais caro na ponta, um bloco de três horas seguidas nos dias úteis cujo horário cada distribuidora define. Se o seu jantar com forno ou cooktop cai nesse bloco, ele custa mais.

Quem está na tarifa branca, ou pensa em aderir, deve fazer a comparação com o próprio consumo antes. O passo a passo está no guia de tarifa branca.

Erros comuns

Comparar só a potência

O forno do exemplo tem 1.800 W e o micro-ondas, 1.100 W, uma diferença de 64%. Na tabela de reaquecer, o gasto do forno sai quase 11 vezes maior, porque o tempo de uso também muda. Olhe sempre potência e minutos juntos.

Trocar o aparelho pequeno em vez do grande

Uma batedeira nova e mais eficiente não muda a fatura. Um micro-ondas de classe A no lugar de um de classe C muda pouco. A geladeira é o aparelho que vale comparar pela etiqueta.

Medir economia em reais

A tarifa, os tributos e a bandeira mudam de um mês para outro. Para saber se a mudança funcionou, compare o consumo em kWh por dia entre faturas, como mostra o guia de histórico de consumo. Para estimar antes, use a calculadora com a potência e as horas de cada aparelho. A fórmula está em como calcular consumo de energia.

Perguntas frequentes

Qual aparelho da cozinha gasta mais energia?

Na média das casas, a geladeira, porque funciona o dia todo. Pela EPE, a conservação de alimentos respondeu por 26,5% a 39% do consumo residencial em 2019. Um forno elétrico usado todo dia pode subir bastante na sua lista, e a conta com a potência e as horas mostra onde ele fica.

Micro-ondas gasta mais que o forno?

Por hora de uso, o forno do exemplo tem potência maior (1.800 W contra 1.100 W). Como o micro-ondas também esquenta a comida em menos tempo e sem pré-aquecimento, ele gasta bem menos para reaquecer um prato.

Cozinhar com gás ou eletricidade sai mais barato?

Depende do preço do gás e do kWh na sua cidade e do aparelho. Para comparar, some o gasto em reais de cada um num mês típico. A parte elétrica você calcula na calculadora.

Tirar os eletroportáteis da tomada economiza?

Economiza muito pouco. Os aparelhos de preparação somam menos de 1% do consumo, e a maior parte desse gasto acontece com eles funcionando, não parados.

Fontes: EPE, Consumo residencial de energia elétrica por classes de renda (dados de 2019), Inmetro, tabela de fornos de micro-ondas (atualização de 31/12/2024), Mueller, forno elétrico Sapore 44 litros, ANEEL, postos tarifários e Agência Brasil, bandeira verde em outubro de 2026.