Placa solar pega fogo? O risco real e o que causa os incêndios

Pode, como qualquer instalação elétrica, mas é raro: na Alemanha, 0,006% dos sistemas causaram incêndio grave até 2013. Veja as causas e como reduzir o risco.

Placa solar pode pegar fogo, como qualquer instalação elétrica, mas o caso é raro e quase sempre começa num defeito de cabo ou conector, não na placa em si. O Fraunhofer ISE, instituto alemão de pesquisa em energia solar, reproduz em seu relatório sobre fotovoltaica na Alemanha um levantamento de 2013: em 20 anos, houve 350 incêndios com envolvimento de sistemas solares, e em 120 deles o sistema foi a causa. Em 75 o dano foi maior, e em 10 a casa foi destruída. Pelo mesmo levantamento, 0,006% dos sistemas causaram incêndio com dano grave.

O mesmo texto resume a regra: seguir as normas existentes, com profissionais qualificados, é a melhor proteção contra incêndio. A seguir, o que provoca o fogo, por que a corrente das placas pede cuidado próprio e o que conferir na sua instalação.

O que faz um sistema solar pegar fogo

O relatório do Fraunhofer ISE aponta dois mecanismos:

  • Arco elétrico. Um conector frouxo, mal crimpado ou incompatível pode abrir uma pequena falha. A corrente continua passando pelo ar, em forma de arco, que esquenta muito. Se houver material inflamável perto, como manta asfáltica ou madeira, pode começar um incêndio.
  • Ponto quente na célula. Uma célula com defeito ou sombreada o tempo todo passa a dissipar energia em vez de gerar, e aquece. O manual de instalação da Canadian Solar avisa que sombra permanente causa aquecimento localizado, envelhece o encapsulamento e força os diodos de proteção, e que defeitos desse tipo por instalação na sombra ou falta de manutenção anulam a garantia.

A fonte mais comum de fogo, segundo o ISE, foram cabos e conexões com defeito. O manual do CRESESB, do Cepel, diz o mesmo em linguagem de manutenção: uma conexão ruim pode produzir arco elétrico, que aumenta a temperatura e causa avaria nos equipamentos.

Por que a corrente das placas pede cuidado próprio

A placa gera corrente contínua, e isso muda duas coisas.

A primeira: ela não desliga. Enquanto houver luz, há tensão nos cabos, mesmo com o inversor desligado. O manual da Canadian Solar abre a seção de segurança com esse aviso: os conectores conduzem corrente contínua quando o módulo está exposto ao sol ou a outra luz, e o contato com partes energizadas pode ferir ou matar, esteja o módulo ligado ao resto do sistema ou não.

A segunda: o arco em corrente contínua é difícil de apagar. O ISE explica que, em corrente contínua, a característica das células pode estabilizar uma corrente de falha, e que ela só para quando o circuito é interrompido ou todas as placas são sombreadas. O CRESESB acrescenta que arcos em corrente contínua são difíceis de extinguir e podem causar queimaduras graves.

Por isso a tensão dos cabos importa. Várias placas em série chegam a centenas de volts em corrente contínua num sistema residencial, segundo o CRESESB. É o lado do sistema que o morador nunca deve tocar.

Os erros de instalação que mais pesam

O ISE é direto: os incêndios costumam acontecer quando equipes sem experiência instalam por empreitada. Se os conectores são presos com alicate comum em vez da ferramenta própria, ou se são usados conectores incompatíveis, o ponto fraco já nasce ali.

O manual da Canadian Solar lista cuidados que evitam exatamente esses defeitos:

  • não ligar entre si conectores de marcas ou modelos diferentes;
  • encaixar os conectores logo, ou protegê-los com tampas, porque desencaixados eles não são à prova d’água;
  • não deixar conectores em pontos onde a água se acumula;
  • usar só cabo solar próprio, de cobre, com seção de pelo menos 4 mm², isolação para 90 °C e resistência ao sol;
  • prender os cabos e inspecionar as fixações de tempos em tempos, para o conector não ficar pendurado;
  • nunca usar o conector para ligar ou desligar o circuito;
  • não abrir a caixa de junção nem modificar diodos ou conectores, porque a placa não tem peças que o usuário possa reparar.

Na hora de contratar, pergunte ao instalador qual conector vai em cada ponta, se é da mesma marca e modelo do conector das placas, e com que ferramenta ele será crimpado. Um orçamento que não sabe responder já diz muito.

As proteções que existem

Três tecnologias atacam o problema:

  • Interrupção de arco (AFCI). O inversor detecta o padrão elétrico de um arco e corta a corrente contínua antes que o fogo comece. O ISE registra que muitos fabricantes já oferecem esse recurso no mercado europeu. No Brasil, a exigência do Inmetro para inversores de rede está em inversor solar: o que é.
  • Desligamento rápido. Um dispositivo junto às placas derruba a tensão dos cabos para um nível seguro quando acionado.
  • Microinversor ou otimizador. Com um conversor em cada placa ou em poucas placas, os cabos que descem pelo telhado não ficam com alta tensão quando o sistema para. As diferenças estão em microinversor ou inversor string e otimizador de potência solar.

Os corpos de bombeiros já escrevem regras com base nisso. A Norma Técnica 44/2025 do Corpo de Bombeiros de Goiás divide os sistemas em dois tipos. No Tipo 1, em geral com inversor string sem otimizador, a fiação fica acima da tensão de segurança (até 120 V em corrente contínua) mesmo com o sistema parado, e a norma exige interrupção de arco, proteção contra falha de aterramento e desligamento rápido. No Tipo 2, com microinversores ou otimizadores, basta o disjuntor de desligamento. A mesma norma pede inversores string a pelo menos 3 metros de materiais de fácil combustão e proíbe equipamentos do sistema em banheiros e outros ambientes úmidos.

Um detalhe importa para quem mora em casa: a NT 44/2025 é só uma recomendação para edificações unifamiliares. No Rio Grande do Sul, a Resolução Técnica CBMRS nº 23, em vigor desde 1º de julho de 2026, é obrigatória para edificações que dependem de licenciamento dos bombeiros ou se enquadram como atividade de baixo risco, e é recomendatória para as demais. Ou seja, na casa, a proteção depende do que você pedir no projeto.

Sinais de alerta em casa

Alguns sinais pedem atenção imediata:

  • marca de queimado, bolha ou mancha escura na placa, no cabo ou num conector;
  • cheiro de plástico queimado perto do inversor ou do quadro;
  • vidro da placa trincado ou quebrado;
  • cabos soltos, pendurados ou roídos;
  • alarme de falha de isolamento ou de aterramento no aplicativo ou no visor do inversor;
  • queda brusca de geração num dia de sol, que não volta.

Nesses casos, não toque nas placas nem nos cabos. O manual da Canadian Solar manda não encostar em nenhuma área danificada, como marcas de queimado, nem em condutor exposto, e não tocar na superfície se o vidro estiver quebrado. Chame a empresa instaladora ou um eletricista habilitado. Se o quadro estiver longe do ponto danificado, desligar o disjuntor do inversor corta a saída dele, mas não desenergiza os cabos das placas, que continuam com tensão enquanto houver luz.

Uma inspeção periódica pega a maioria desses defeitos antes que virem problema. O que olhar e com que frequência está em manutenção de energia solar.

Se houver fogo

Saia de casa, ligue 193 e avise que o imóvel tem sistema solar e onde fica o inversor. Não suba no telhado nem tente puxar cabos.

O ISE afirma que, combatendo de fora, uma distância de poucos metros protege os bombeiros, e que água pode ser usada para apagar sistemas fotovoltaicos a uma distância de 1 a 5 metros, conforme o tipo de jato. O relatório registra também que, nas pesquisas feitas até agora na Alemanha, todas as histórias de bombeiros que deixaram casas queimar por causa das placas se mostraram falsas. A NT 44/2025 recomenda que os moradores conheçam o local das placas, do inversor, das baterias e do desligamento rápido, quando existir. Vale deixar isso anotado perto do quadro.

O custo de um sistema parado

Um defeito que desliga o sistema também custa dinheiro enquanto espera reparo. Um sistema de 5 kWp no Sudeste, com irradiação em torno de 5,07 kWh/m² por dia pelo Atlas do INPE e a suposição de 80% de aproveitamento, gera 5 × 5,07 × 0,80 × 30 = 608,4 kWh por mês. A R$ 0,80 por kWh, a mediana residencial de 100 distribuidoras sem tributos, com dados da ANEEL consultados em 28/09/2026 (veja tarifas), são R$ 486,72 por mês de geração parada, antes de tributos e da regra de compensação do Fio B. Em setembro de 2026, a bandeira foi amarela, com R$ 0,01885 a mais por kWh; para outubro de 2026, a ANEEL anunciou bandeira verde, sem adicional (veja bandeira). O cálculo acima não soma bandeira. Para ver o peso da geração na sua conta, use a calculadora.

Por isso vale conferir a apólice. Para centrais fotovoltaicas, o CRESESB recomenda seguro que cubra eventos climáticos, roubo e vandalismo, e cita apólices que cobrem até a perda de produção. O que olhar no caso da casa está em seguro para placa solar.

Perguntas frequentes

A placa pode pegar fogo só com o calor do sol?

O calor do sol, sozinho, não é o que inicia os incêndios descritos pelo ISE. O que inicia é um defeito elétrico, arco ou ponto quente, com material inflamável por perto. As placas são ensaiadas quanto ao comportamento no fogo: a Canadian Solar informa classificação pelas normas UL 61730 e IEC 61730-2 e avisa que a classificação de fogo só vale com a montagem feita como o manual especifica.

Microinversor é mais seguro que inversor string?

Ele reduz a tensão dos cabos no telhado quando o sistema para, e por isso a NT 44/2025 de Goiás coloca os sistemas com microinversores no grupo de menor exigência. Isso não dispensa conectores certos e instalação bem feita.

O seguro residencial cobre incêndio causado pelas placas?

Depende da apólice. Informe a seguradora sobre o sistema e confira se a cobertura inclui os equipamentos e o dano elétrico. Veja seguro para placa solar.

Energia solar aumenta o risco de incêndio da casa?

O ISE conclui que sistemas fotovoltaicos não trazem risco de incêndio visivelmente maior que outros sistemas técnicos, desde que as regras de segurança elétrica sejam cumpridas. O risco se concentra na qualidade da instalação.

Fontes: Fraunhofer ISE, Recent Facts about Photovoltaics in Germany (versão de 20/08/2026), seção 27, Canadian Solar, manual de instalação de módulos fotovoltaicos, v3.3, julho de 2026, CRESESB/Cepel, Manual de Engenharia para Sistemas Fotovoltaicos (2014), Corpo de Bombeiros de Goiás, Norma Técnica 44/2025, Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Sul, Resolução Técnica nº 23/2025, INPE, Atlas Brasileiro de Energia Solar, 2ª edição e Agência Brasil, bandeira verde em outubro de 2026.