Fator de potência: o que é e se ele pesa na conta de luz da sua casa
Fator de potência mede quanto da energia que circula vira trabalho. Veja a conta com uma lâmpada LED real e por que a residência não paga reativo.
Fator de potência é um número entre 0 e 1 que diz quanto da energia que circula num aparelho vira trabalho de verdade, como luz, calor ou movimento. Na conta de luz de uma casa ele não aparece: a Resolução Normativa 1.000/2021 da ANEEL proíbe a distribuidora de cobrar energia reativa excedente das unidades do grupo B, que inclui as residências.
Quem paga por fator de potência baixo são as unidades do grupo A, ligadas em tensão de 2,3 kV ou mais, como indústrias e prédios comerciais maiores. Para elas, o limite mínimo é 0,92. A seguir, o conceito com números de um produto à venda, o que muda para a sua casa e os aparelhos “economizadores” que prometem reduzir a conta corrigindo o fator de potência.
Energia ativa e energia reativa
A REN 1.000 define as duas energias que circulam num sistema de corrente alternada:
- Energia ativa é a que pode ser convertida em outra forma de energia. É medida em kWh, a unidade da sua fatura.
- Energia reativa é a que circula entre os campos elétricos e magnéticos do sistema sem produzir trabalho. É medida em kvarh.
Motores, compressores, reatores e fontes eletrônicas precisam de campos magnéticos ou elétricos para funcionar. Essa energia vai e volta entre o aparelho e a rede a cada ciclo. Ela não vira luz nem frio, mas ocupa espaço no fio, porque a corrente que a transporta passa pelos mesmos condutores.
Um aparelho que só aquece, como chuveiro, ferro de passar ou aquecedor de resistência, quase não tem parte reativa. O fator de potência dele fica muito perto de 1.
A definição oficial e o triângulo das potências
A resolução define o fator de potência como a razão entre a energia ativa e a raiz quadrada da soma dos quadrados das energias ativa e reativa, consumidas no mesmo período. Parece complicado, mas é o teorema de Pitágoras:
- a potência ativa (P, em watts) é um cateto;
- a potência reativa (Q, em var) é o outro cateto;
- a potência aparente (S, em volt-ampères, VA) é a hipotenusa.
O fator de potência é FP = P ÷ S. Se ele vale 1, toda a potência que passa pelo fio é ativa. Se vale 0,5, metade da potência aparente vira trabalho e o resto é reativo.
A potência aparente é a que define a corrente: I = S ÷ V. Por isso dois aparelhos com os mesmos watts podem puxar correntes diferentes. O artigo sobre potência elétrica mostra a fórmula P = V × I, que vale sem ajuste só quando o fator de potência é 1. O que é a corrente, e por que ela importa para o fio, está em corrente elétrica: o que é.
Exemplo com uma lâmpada LED
A Taschibra informa, para a lâmpada LED TKL 40 de 7 W, fator de potência 0,7 e tensão de 100 a 240 V. Com esses dois números:
- Potência aparente: 7 ÷ 0,7 = 10 VA.
- Potência reativa: √(10² − 7²) = √51 ≈ 7,1 var.
- Corrente em 127 V: 10 ÷ 127 ≈ 0,079 A.
- Corrente se o fator fosse 1: 7 ÷ 127 ≈ 0,055 A.
Em fontes eletrônicas como a da lâmpada, parte da diferença entre VA e W vem da distorção da corrente, e não só de energia reativa; o triângulo é uma simplificação, mas a conta da corrente vale do mesmo jeito. A lâmpada puxa cerca de 43% mais corrente do que puxaria com fator 1, mas o consumo em kWh é o mesmo, porque só a parte ativa vira luz e só ela é registrada pelo medidor da casa.
| Situação | Potência ativa | Potência aparente | Corrente em 127 V | kWh no mês (5 h/dia, 30 dias) |
|---|---|---|---|---|
| 1 lâmpada, FP 0,7 | 7 W | 10 VA | 0,079 A | 1,05 |
| 1 lâmpada, FP 1 (comparação) | 7 W | 7 VA | 0,055 A | 1,05 |
| 10 lâmpadas, FP 0,7 | 70 W | 100 VA | 0,79 A | 10,5 |
As 5 horas por dia são uma suposição do exemplo. Com o kWh a R$ 0,80, mediana residencial de 98 distribuidoras sem impostos em dados da ANEEL consultados em 11/09/2026 (veja as tarifas), as dez lâmpadas custam R$ 8,40 por mês, com qualquer fator de potência. ICMS, PIS/Cofins e a bandeira amarela de setembro de 2026, de R$ 0,01885 por kWh, entram por cima desse valor. Para outubro de 2026, a ANEEL anunciou bandeira verde, sem adicional.
Uma corrente de 0,79 A é pequena para qualquer circuito de iluminação. O fator de potência baixo de aparelhos pequenos não sobrecarrega uma casa. Ele pesa quando se soma em grande escala, como num galpão com centenas de luminárias ou motores.
Por que a sua conta não muda
O medidor residencial registra energia ativa em kWh, e é sobre ela que a distribuidora aplica a tarifa. O artigo 303 da REN 1.000 diz que a distribuidora não pode cobrar da unidade do grupo B, que não tem fator de potência de referência, o consumo de energia reativa excedente.
O grupo B, pela mesma resolução, reúne as unidades ligadas em tensão menor que 2,3 kV, divididas em subgrupos: B1 residencial, B2 rural, B3 demais classes e B4 iluminação pública. Uma casa, um apartamento ou uma pequena loja ligados na baixa tensão estão aí.
Na prática, o fator de potência dos seus aparelhos não entra na fatura. O que entra são os kWh, que dependem de potência ativa e horas de uso, conta que o artigo como calcular consumo de energia explica. Para achar onde está o gasto, veja os aparelhos que mais gastam energia ou teste valores na calculadora.
Quem paga pelo fator de potência baixo
O grupo A reúne as unidades ligadas em tensão igual ou maior que 2,3 kV, ou atendidas por sistema subterrâneo em tensão menor, conforme a REN 1.000. Pelo artigo 23 da resolução, uma unidade consumidora cuja carga passa de 75 kW é, em regra, enquadrada no grupo A.
Para esse grupo, o artigo 302 fixa o fator de potência de referência em 0,92, indutivo ou capacitivo. O artigo 304 manda a distribuidora cobrar a energia e a demanda reativas excedentes, calculadas hora a hora:
- num período de 6 horas consecutivas, que a distribuidora define entre 23h30 e 6h30, contam apenas as horas com fator abaixo de 0,92 capacitivo;
- no resto do dia, contam apenas as horas com fator abaixo de 0,92 indutivo.
O valor de referência dessa energia excedente é a tarifa de energia (TE) da bandeira verde do subgrupo B1. A distribuidora deve avisar o período de 6 horas com pelo menos um ciclo de faturamento de antecedência.
Quando uma unidade do grupo A começa a receber energia, o artigo 316 garante um período de ajustes de três ciclos completos de faturamento. Nesse prazo, a distribuidora calcula e informa os valores de reativo excedente sem cobrar, para que o consumidor corrija a instalação.
Como empresas corrigem o fator de potência
A solução mais comum são bancos de capacitores, que fornecem localmente a energia reativa que os motores pedem. A própria REN 1.000 exige que esses bancos sejam instalados de modo a não provocar efeitos transitórios ou ressonâncias que prejudiquem a rede ou outras instalações.
O dimensionamento depende da medição hora a hora, do tipo de carga e do horário em que ela funciona. É projeto de engenheiro eletricista, com a memória de massa do medidor em mãos. Capacitor mal dimensionado pode deixar o fator capacitivo de madrugada, e o excedente capacitivo também é cobrado no período de 6 horas definido pela distribuidora.
O “economizador de energia” que corrige o fator de potência
Se você viu anúncio de um aparelho de tomada que promete cortar a conta de luz de casa corrigindo o fator de potência, a conta mostra o limite dessa promessa:
- O medidor residencial cobra kWh, energia ativa.
- A distribuidora não pode cobrar reativo excedente do grupo B.
- Um capacitor na tomada, no máximo, reduz a parte reativa da corrente que circula na fiação.
Não há na fatura residencial uma parcela de reativo que esse aparelho possa eliminar. A energia ativa de que a geladeira, o chuveiro e a TV precisam para funcionar continua a mesma. Qualquer redução real da conta vem de usar menos energia ativa: aparelhos mais eficientes, menos horas ligadas, banho mais curto. O Selo Procel e as dicas de como economizar energia em casa atacam o que a fatura cobra.
Se a conta subiu sem explicação, o caminho é outro: o guia conta de luz alta: o que conferir e o artigo sobre fuga de corrente. Fuga de corrente é problema de instalação e segurança, para um eletricista habilitado avaliar.
Onde o fator de potência aparece para o morador
Mesmo sem pesar na conta, o fator de potência aparece em três lugares:
- Na embalagem de lâmpadas e fontes. Como no exemplo da Taschibra, é um dado técnico. Para comparar consumo, olhe os watts e a eficiência em lúmens por watt.
- No dimensionamento de nobreak e gerador. Esses equipamentos têm limite em VA e em W. Um aparelho com fator baixo usa mais VA do que watts. O artigo nobreak ou gerador trata da escolha.
- Na corrente da placa. Em aparelhos com motor, a corrente informada pode ser maior que watts divididos por volts. É o fator de potência, entre outros efeitos, aparecendo.
Perguntas frequentes
Qual é um bom fator de potência?
Para o grupo A, a ANEEL fixa 0,92 como limite mínimo. Aparelhos resistivos, como chuveiro e aquecedor, ficam perto de 1. Para a sua casa, o número não muda a fatura.
Fator de potência baixo aumenta a conta de luz residencial?
Não. A REN 1.000 proíbe a cobrança de reativo excedente do grupo B, e o medidor cobra kWh. O que aumenta é a corrente no fio, sem efeito na fatura em aparelhos domésticos comuns.
Fator de potência e rendimento são a mesma coisa?
Não. Rendimento compara a energia útil com a energia ativa consumida. Um motor pode ter bom rendimento e fator de potência baixo, ou o contrário. Para comparar gasto, use os kWh da etiqueta, como explica o guia sobre consumo na etiqueta.
Como sei se minha unidade é do grupo A ou do grupo B?
A classificação aparece na fatura. Residências ligadas na rede de baixa tensão estão no grupo B. Se a fatura traz demanda contratada e cobrança de reativo, é grupo A.
Fontes: Diário Oficial da União, Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021, Taschibra, lâmpada LED TKL 40 de 7 W e Agência Brasil, bandeira verde em outubro de 2026.