Monocristalino ou policristalino: qual placa solar escolher

Em 2025 o mundo fabricou 690 GWp de módulos monocristalinos e praticamente nenhum policristalino. Veja a diferença em eficiência, área e calor.

Monocristalino. A disputa acabou no mercado: pelo relatório de fotovoltaica do Fraunhofer ISE, atualizado em julho de 2026, a produção mundial de módulos em 2025 foi de cerca de 706 GWp, dos quais 690 GWp em silício monocristalino e zero em policristalino. O instituto resume que a tecnologia multicristalina, outro nome da policristalina, na prática desapareceu do mercado.

Se um orçamento ainda oferece policristalino, é estoque antigo. A comparação útil hoje é entre modelos monocristalinos, e ela passa por três números da ficha técnica: eficiência, coeficiente de temperatura e garantia de potência. Abaixo, o que cada um muda no seu telhado.

A diferença entre os dois

As duas são placas de silício cristalino. O que muda é como o silício é solidificado.

O manual de engenharia fotovoltaica do CRESESB, ligado ao Cepel, explica que o silício monocristalino é obtido como um único cristal, principalmente pelo método Czochralski, em que um lingote cresce a partir de uma semente. No policristalino, o material é solidificado em blocos formados por muitos cristais pequenos, com dimensões da ordem de centímetros. Os lingotes ou blocos são depois cortados em lâminas finas, onde se fabricam as células.

As fronteiras entre esses cristais atrapalham um pouco a passagem da corrente, e por isso as células policristalinas sempre renderam um pouco menos. Em 2014, o manual registrava eficiência média de 16,5% para células monocristalinas produzidas na indústria e de 14,5% a 16,2% para as policristalinas. A vantagem do policristalino era o custo de fabricação.

O que mudou na última década

A diferença de eficiência cresceu e o preço do monocristalino caiu. O Fraunhofer ISE registra que a eficiência dos módulos comerciais de silício monocristalino subiu de cerca de 17% para pouco menos de 25% em dez anos. O relatório também aponta que a tecnologia TOPCon, um tipo de célula monocristalina, passou a dominar a produção, e que o recorde de laboratório para células monocristalinas chegou a 28,1%.

A tabela de módulos do Programa Brasileiro de Etiquetagem, do Inmetro, mostra o ponto de partida. Na versão atualizada em fevereiro de 2018, ainda disponível no site do instituto, as eficiências médias dos modelos listados ficavam perto de 16% nos policristalinos e perto de 17% nos monocristalinos, com a grande maioria dos registros sendo de policristalinos. O próprio Inmetro avisa que a tabela pode ficar desatualizada e que o registro do produto deve ser confirmado no banco de produtos registrados.

Eficiência na prática: o que cabe no telhado

Eficiência é quanto da luz que bate no módulo vira eletricidade. Na ficha técnica, ela aparece em porcentagem e é, na prática, a potência por metro quadrado dividida por 1.000 W/m², a irradiância do ensaio padrão.

Módulo Tecnologia Potência Área Eficiência
Ulica UL-250P-60 (tabela Inmetro de 2018) Policristalino 248 W 1,63 m² 15,2%
Ulica UL-260M-60 (tabela Inmetro de 2018) Monocristalino 256 W 1,63 m² 15,7%
Anauger 460 Wp Monocristalino, meia célula 460 W 2,16 m² 21,3%
Jinko Tiger Neo 3.0 Monocristalino TOPCon 670 W não consultada 24,8%

Os dois módulos Ulica têm o mesmo tamanho, e o monocristalino entrega 8 W a mais. A área do módulo Anauger sai das medidas da ficha, 1.903 × 1.134 mm, e a eficiência vem da conta 460 ÷ 2,158 m² ÷ 1.000. A eficiência do Tiger Neo 3.0 é a informada pelo fabricante.

O efeito aparece quando o telhado é pequeno. Considere 15 m² de área útil para módulos, sem sombra, no Sudeste. Para a geração, use a irradiação média de 5,07 kWh/m² por dia do Atlas Brasileiro de Energia Solar, do INPE, e a taxa de desempenho de 80% que o Atlas adota: cada kWp gera cerca de 121,7 kWh por mês (5,07 × 0,80 × 30).

Potência por m² Potência em 15 m² Geração por mês Valor a R$ 0,80 por kWh
152 Wp/m² (poli da tabela de 2018) 2,28 kWp 277,4 kWh R$ 221,94
213 Wp/m² (mono de 21,3%) 3,20 kWp 388,8 kWh R$ 311,01
248 Wp/m² (mono de 24,8%) 3,72 kWp 452,6 kWh R$ 362,12

A tabela multiplica a potência por m² pela área, então é um teto. Como a placa não se divide, cabe menos: com o Anauger de 2,16 m², entram 6 módulos em 15 m², ou 2,76 kWp, cerca de 335,8 kWh por mês e R$ 268,67.

O valor usa R$ 0,80 por kWh, a mediana residencial de 98 distribuidoras sem tributos, com dados da ANEEL consultados em 11/09/2026 (tarifas). É um teto de economia, porque a parte injetada na rede perde o Fio B, explicado em taxação do sol e Fio B. Para chegar ao consumo que você quer cobrir, veja quantas placas solares preciso e confira seus kWh com a calculadora.

Se o telhado sobra, a eficiência pesa menos. O CRESESB é direto sobre isso: a eficiência não deve orientar a escolha do módulo, a não ser que a área disponível seja um fator restritivo. Fora desse caso, contam custo por watt instalado, durabilidade e reputação do fabricante.

Calor: o número que quase ninguém olha

A placa perde potência quando esquenta. A ficha técnica mostra isso no coeficiente de temperatura da potência máxima, em % por °C.

O CRESESB dá um exemplo de como estimar a temperatura do módulo: temperatura ambiente mais 0,03 vezes a irradiância. Com 30 °C de ar e 1.000 W/m² de sol, o módulo chega a 60 °C, 35 °C acima dos 25 °C do ensaio padrão. Agora aplique dois coeficientes:

  • O valor típico de módulos de silício cristalino citado pelo manual em 2014, -0,5% por °C: perda de 35 × 0,5 = 17,5%.
  • O coeficiente do Jinko Tiger Neo 3.0 informado pelo fabricante, -0,26% por °C: perda de 35 × 0,26 = 9,1%.

Num módulo de 460 W, isso separa algo perto de 380 W de algo perto de 418 W na hora mais quente do dia. É uma comparação entre um valor típico de uma década atrás e uma ficha atual, não entre dois produtos à venda hoje, mas mostra por que vale olhar esse número. Em regiões quentes, um coeficiente menor rende mais kWh no ano.

Garantia de potência

Toda placa perde um pouco de potência com os anos. A ficha do módulo Anauger de 460 Wp informa 90% da potência aos 12 anos e 80% aos 25 anos. Compare esses dois números entre os orçamentos: eles dizem quanto o sistema ainda vai gerar na metade e no fim da vida útil. O assunto completo está em placa solar dura quantos anos.

Como comparar orçamentos

Com a ficha técnica de cada módulo na mão:

  1. Confira a tecnologia. Monocristalino é o padrão; policristalino só se o preço por watt compensar a área extra que ele ocupa.
  2. Compare o preço por Wp do sistema, não o preço por placa. Placas de 460 W e de 670 W não são comparáveis unidade por unidade.
  3. Olhe a eficiência só se o telhado for pequeno ou tiver sombra em parte da área.
  4. Compare o coeficiente de temperatura, principalmente em regiões quentes.
  5. Leia a garantia de potência aos 12 e aos 25 anos.
  6. Confira se o módulo tem a etiqueta do Inmetro e registro válido. A Anauger, por exemplo, informa classe A na etiqueta Procel Inmetro.

O inversor também entra na conta. Veja inversor solar: o que é e o que acompanha um kit de energia solar.

Perguntas frequentes

Monocristalino funciona melhor em dia nublado?

A diferença é pequena perto do efeito do próprio tempo. Na página do Tiger Neo 3.0, a Jinko anuncia que módulos TOPCon geram de 2,26% a 2,49% a mais em baixa irradiância, mas essa é uma alegação do fabricante. Um dia nublado derruba a geração bem mais que isso, como mostra placa solar em dia nublado.

Ainda vale comprar policristalino barato?

Só se a conta por watt instalado fechar e houver área de sobra. Ele ocupa mais telhado para a mesma potência, e reposição futura pode ser difícil com a produção mundial praticamente zerada.

O que são meia célula, TOPCon e bifacial?

São variações dentro do monocristalino. TOPCon é o tipo de célula que, segundo o Fraunhofer, passou a dominar a produção. Meia célula é uma forma de montar as células no módulo, como no Anauger de 460 Wp da tabela. Bifacial é o módulo que também gera com a luz que chega pela face de trás; a Jinko informa, para o Tiger Neo 3.0, uma taxa de bifacialidade de 85%, com variação de 5 pontos. Peça ao instalador a ficha técnica e a estimativa de geração do modelo proposto, em vez de escolher pelo nome da tecnologia.

E o filme fino?

Existe, mas é nicho. O Fraunhofer estima a participação do filme fino entre 2% e 3% da produção.

Fontes: Fraunhofer ISE, Photovoltaics Report (julho de 2026), CRESESB/Cepel, Manual de Engenharia para Sistemas Fotovoltaicos (2014), Inmetro, tabela PBE de módulos fotovoltaicos, Anauger, módulo solar 460 Wp, JinkoSolar, Tiger Neo 3.0 e INPE, Atlas Brasileiro de Energia Solar, 2ª edição.