Carregador de carro elétrico no condomínio: regras, medição e quem paga

O carregador passa pela rede elétrica comum do prédio, então o condomínio decide como instalar e cobrar. Veja as regras, as formas de medir e os kWh do mês.

Dá para instalar um carregador de carro elétrico na vaga do condomínio, mas não sem o condomínio: a rede de eletricidade do prédio é parte comum pelo Código Civil, e a obra precisa de autorização conforme a convenção e a assembleia. A energia pode entrar na conta do seu apartamento ou ser medida à parte e cobrada pelo condomínio. Para um carro de passeio mediano rodando 800 km por mês, são cerca de 129 kWh, uns R$ 103 antes dos tributos.

Abaixo estão o que a lei e a ANEEL dizem, as três formas comuns de ligar o carregador, a conta de quantos kWh entram por mês e o roteiro para levar o pedido ao síndico.

O que a lei diz sobre a vaga e a rede do prédio

O Código Civil separa, no condomínio edilício, as partes de propriedade exclusiva e as partes comuns. O artigo 1.331 põe entre as comuns “a rede geral de distribuição de água, esgoto, gás e eletricidade”. Um carregador ligado a essa rede, ou que passe cabos por áreas comuns, mexe em algo que é de todos.

Três artigos orientam a decisão:

  • Art. 1.336, II: o condômino não pode fazer obras que comprometam a segurança da edificação.
  • Art. 1.341: obras úteis dependem do voto da maioria dos condôminos; obras voluptuárias, de dois terços.
  • Art. 1.342: obras em partes comuns, em acréscimo às existentes, para facilitar ou aumentar a utilização, dependem de dois terços dos votos.

O Código Civil não fala em carregador de carro. Em qual desses casos a instalação se enquadra depende do projeto e da convenção do prédio; é a assembleia que decide, e um advogado de direito condominial ajuda se houver impasse.

Algumas cidades têm regra própria para prédios novos. Em São Paulo, a Lei municipal nº 17.336/2020 obriga os projetos de edifícios residenciais e comerciais protocolados depois da vigência da lei a prever solução de recarga, com medição individualizada e cobrança da energia consumida. Ela não obriga prédios antigos a instalar nada.

O que a ANEEL exige

As regras de recarga estão no Capítulo V da Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021, no texto consolidado. As que mais pesam num condomínio:

  • Art. 550: a instalação da estação de recarga deve ser comunicada antes à distribuidora quando exigir conexão nova, aumento ou redução de carga, ou mudança do nível de tensão.
  • Art. 552: carregadores que não sejam de uso exclusivamente privado devem ser compatíveis com protocolos abertos de comunicação e de supervisão e controle remotos. Isso importa quando o condomínio compra um equipamento para uso coletivo.
  • Art. 553: a unidade com estação de recarga segue as normas e os padrões da distribuidora e as normas dos órgãos oficiais competentes.
  • Art. 554: é permitido recarregar carros que não são do titular da unidade consumidora, inclusive cobrando, a preço livremente negociado. É o que permite ao condomínio repassar a energia ao morador.

As regras de instalação na casa, com tempos de recarga e perdas, estão em wallbox ou tomada comum.

Três formas de ligar o carregador

O desenho da instalação é trabalho de engenheiro eletricista ou de eletricista habilitado, com projeto e responsável técnico. O que o morador precisa entender é de onde vem a energia e quem paga por ela.

Circuito vindo do medidor do apartamento

O carregador recebe energia de um circuito que sai do medidor da sua unidade. A recarga aparece na sua própria conta de luz, com a sua tarifa, e o condomínio não precisa medir nem cobrar nada. Em prédios com medidores concentrados longe da garagem, o cabo pode ter um percurso longo por áreas comuns, e é esse percurso que vai para aprovação.

Circuito da área comum com medição à parte

O carregador é ligado ao quadro do condomínio, e um medidor de energia instalado no circuito registra quanto cada vaga consome. O condomínio paga a conta da área comum e cobra do morador os kWh medidos, como a Resolução 1.000 permite. Essa forma exige regra escrita para a leitura e o preço.

Carregador coletivo do condomínio

O condomínio compra um ou mais carregadores para uso de todos, com identificação de quem carregou. Aqui vale o artigo 552 da ANEEL sobre protocolos abertos, e a cobrança costuma sair do próprio sistema do equipamento.

Seja qual for a forma, não use a tomada comum da garagem sem acordo. A energia dessa tomada é paga por todos os condôminos, e a recarga puxa corrente alta por horas num circuito que pode não ter sido projetado para isso.

Quantos kWh a recarga soma no mês

O consumo vem da Tabela PBE Veicular do Inmetro. A mediana dos carros elétricos de passeio da versão de agosto de 2026 fica em 16,1 kWh a cada 100 km; o BYD Dolphin Mini GS, um dos mais econômicos, aparece com 11,4 kWh a cada 100 km. A comparação por modelo está em quantos kWh gasta um carro elétrico por km.

Km rodados no mês Compacto, 11,4 kWh/100 km Mediana, 16,1 kWh/100 km
500 km 57,0 kWh, R$ 45,60 80,5 kWh, R$ 64,40
800 km 91,2 kWh, R$ 72,96 128,8 kWh, R$ 103,04
1.000 km 114,0 kWh, R$ 91,20 161,0 kWh, R$ 128,80
1.500 km 171,0 kWh, R$ 136,80 241,5 kWh, R$ 193,20

Os valores usam R$ 0,80 por kWh, a mediana da tarifa residencial das distribuidoras sem tributos, com dados da ANEEL consultados em 28/09/2026 (veja as tarifas).

Em setembro de 2026, a bandeira foi amarela, com R$ 0,01885 a mais por kWh; para outubro de 2026, a ANEEL anunciou bandeira verde, sem adicional. Com a amarela de setembro, os 128,8 kWh da linha de 800 km custam 128,8 × R$ 0,81885 = R$ 105,47. Em outubro, com a verde, ficam em R$ 103,04.

Parte da energia se perde entre a rede e a bateria. O ADAC, clube automobilístico alemão, mediu perdas de 5,1% a 7,0% em wallboxes de 11 kW e 22 kW e de 12,7% a 24,2% na tomada doméstica. A tabela do Inmetro não informa se o seu número já inclui essas perdas; se não incluir, o medidor da vaga registra um pouco mais que ela.

Quanto cobrar do morador

Se a medição é do condomínio, uma forma simples de chegar ao preço por kWh é usar a conta da área comum: o total da fatura, com tributos e bandeira, dividido pelos kWh faturados no mês. Esse valor costuma ser maior que os R$ 0,80 da tabela, porque inclui ICMS, PIS e Cofins. O guia qual valor do kWh usar mostra como achar esse número na fatura, e o artigo como dividir a conta de luz trata de rateios em geral.

Se o prédio estiver na tarifa branca, o preço muda com o horário. Nesse caso, a regra do condomínio precisa dizer em que horário a recarga é permitida ou cobrada; o guia de tarifa branca explica os postos.

A rede do prédio aguenta?

Um carregador de 7 kW é uma carga grande, e fica ligado por horas seguidas. Um prédio com dez vagas carregando ao mesmo tempo pode precisar de outro dimensionamento na entrada de energia. É o caso do artigo 550 da ANEEL: aumento de carga comunicado à distribuidora, com os custos seguindo as regras da própria resolução. O caminho do pedido está em aumento de carga.

Por isso o primeiro passo não é comprar o carregador, e sim o levantamento da carga disponível no quadro do condomínio, feito por um profissional habilitado. Esse estudo diz quantos carregadores cabem e de que potência.

Roteiro para levar o pedido ao síndico

  1. Leia a convenção e o regimento interno. Veja se já há regra para obras na garagem ou para uso de energia comum.
  2. Peça ao síndico o levantamento da carga elétrica disponível, ou proponha que o condomínio contrate um.
  3. Leve um projeto assinado por profissional habilitado, com o trajeto dos cabos, a proteção do circuito e a forma de medição.
  4. Proponha por escrito como a energia será paga: medidor da unidade, medidor na vaga ou carregador coletivo.
  5. Peça que o assunto entre na pauta da assembleia, com o quórum que a convenção e o Código Civil exigem para o tipo de obra.
  6. Depois da aprovação, a instalação é feita por profissional habilitado, com comunicação à distribuidora quando for o caso do artigo 550.

Perguntas frequentes

O síndico pode proibir o carregador?

O síndico cumpre a convenção e as decisões da assembleia, pelo artigo 1.348 do Código Civil. Se a assembleia aprovar a instalação com o quórum exigido, ele executa. Se houver recusa sem base na convenção, a disputa é jurídica, e um advogado de direito condominial avalia o caso.

Posso carregar na tomada da garagem?

Só com acordo do condomínio. A energia dessa tomada é da área comum, paga por todos, e a recarga puxa corrente por horas seguidas. O artigo tomada de 10 A ou 20 A explica esse limite.

Quem paga a energia do carregador?

Depende da ligação. No circuito do seu medidor, a recarga vem na sua conta. No circuito da área comum, o condomínio paga a distribuidora e cobra do morador os kWh medidos, como permite o artigo 554 da Resolução ANEEL nº 1.000/2021.

Preciso avisar a distribuidora?

Quando a instalação exigir conexão nova, aumento ou redução de carga, ou mudança do nível de tensão, sim, pelo artigo 550. O profissional que fizer o projeto diz se é o caso.

Quanto tempo leva para carregar?

Depende da potência do carregador e do limite do carro. As contas por potência estão em wallbox ou tomada comum, e o custo por quilômetro, em quanto custa carregar um carro elétrico. Para a sua rotina, coloque os kWh na calculadora.

Fontes: Planalto, Código Civil (Lei nº 10.406/2002), texto compilado, ANEEL, Resolução Normativa nº 1.000/2021, texto consolidado, Prefeitura de São Paulo, Lei nº 17.336/2020, Inmetro, Tabela PBE Veicular 2026, ADAC, estudo de perdas na recarga, ANEEL, dados abertos das tarifas das distribuidoras e Agência Brasil, bandeira verde em outubro de 2026.