Como dividir a conta de luz entre moradores: quatro jeitos, com as contas
Dividir por pessoa é simples, mas pesa para quem usa pouco. Veja quatro métodos com exemplos em reais, o preço real do kWh da fatura e quem responde pela dívida.
O jeito mais simples de dividir a conta de luz é pelo número de moradores: uma fatura de R$ 330 entre três pessoas dá R$ 110 para cada. Ele funciona quando todos usam a casa de forma parecida. Quando alguém tem ar-condicionado no quarto, passa semanas fora ou trabalha em casa, vale separar primeiro o que é de uso individual e dividir só o resto.
A distribuidora não participa desse acerto. Ela emite uma fatura por unidade consumidora, cobrada de um único titular. O combinado entre os moradores é particular, e é bom que fique por escrito.
Antes de dividir: o preço real do kWh da sua fatura
Para dividir, use o preço que a casa de fato paga por kWh, com impostos e bandeira, e não a tarifa de referência. Se usar só a tarifa, a soma das partes não fecha com o total da conta.
Um exemplo que vai servir para todos os métodos abaixo. A fatura do mês tem:
- total a pagar: R$ 330,00;
- contribuição de iluminação pública: R$ 18,00 (valor ilustrativo);
- consumo: 300 kWh.
A parte que depende do consumo é R$ 330 menos R$ 18 = R$ 312. Dividida pelo consumo, R$ 312 ÷ 300 kWh = R$ 1,04 por kWh. Esse é o preço efetivo da energia nessa conta, com tributos e bandeira embutidos. Ele é maior que a mediana de R$ 0,80 por kWh sem tributos das 98 distribuidoras consultadas pela ANEEL em 11/09/2026, e é assim mesmo: ICMS, PIS/Cofins e a bandeira entram por cima.
A iluminação pública não varia com quem liga o quê. Faz sentido rachar essa linha em partes iguais. O que ela é, e quem define o valor, está em taxa de iluminação pública.
Jeito 1: partes iguais por morador
É a regra mais comum em república e entre casais.
- R$ 330 ÷ 3 = R$ 110 para cada morador.
Funciona bem quando os hábitos se parecem. Fica injusto quando uma pessoa concentra um aparelho pesado ou passa boa parte do mês fora.
Jeito 2: proporcional aos dias em casa
Serve para quem viaja muito ou mora parte do mês em outro lugar. Some os dias que cada um passou em casa e divida pela soma.
Suponha que A e B ficaram os 30 dias e C ficou 10:
- Total de pessoa-dia: 30 + 30 + 10 = 70.
- A: R$ 330 × 30 ÷ 70 = R$ 141,43.
- B: R$ 141,43.
- C: R$ 330 × 10 ÷ 70 = R$ 47,14.
Conferência: R$ 141,43 + R$ 141,43 + R$ 47,14 = R$ 330,00.
A limitação é que a geladeira e outros aparelhos que ficam ligados o mês todo gastam o mesmo com dois ou três moradores. Quem quiser refinar pode combinar partes iguais para a iluminação pública e esse fundo fixo, e usar os dias só para o resto.
Jeito 3: separar o aparelho de uso individual
É o método mais justo quando um morador tem um aparelho que os outros não usam. Primeiro calcule o consumo desse aparelho, depois divida o que sobrar.
No exemplo, C tem ar-condicionado no quarto. Vamos supor, só para a conta, que o aparelho puxe em média 800 W durante 6 horas por noite, nas 30 noites:
- Consumo do ar: 0,8 kW × 6 h × 30 = 144 kWh.
- Custo do ar, ao preço efetivo da fatura: 144 × R$ 1,04 = R$ 149,76. Fica com C.
- Resto da energia: R$ 312 − R$ 149,76 = R$ 162,24, dividido por três = R$ 54,08.
- Iluminação pública: R$ 18 ÷ 3 = R$ 6,00.
| Morador | Energia comum | Iluminação pública | Ar-condicionado | Total |
|---|---|---|---|---|
| A | R$ 54,08 | R$ 6,00 | R$ 60,08 | |
| B | R$ 54,08 | R$ 6,00 | R$ 60,08 | |
| C | R$ 54,08 | R$ 6,00 | R$ 149,76 | R$ 209,84 |
A soma dá R$ 330,00. Pela divisão igual, A e B pagariam R$ 110 cada; com o aparelho separado, pagam R$ 60,08. A diferença mostra por que vale fazer a conta quando há um aparelho grande na casa.
A potência média do ar-condicionado muda muito com o modelo, os BTUs e o calor. O artigo quanto gasta um ar-condicionado ajuda a estimar o do seu quarto, e a calculadora faz a conta para qualquer aparelho. Quem trabalha em casa pode usar o mesmo método para computador, monitor e ar do escritório, como mostra home office aumenta a conta de luz?.
Estimar ou medir
A estimativa usa potência e horas. Para aparelhos de tomada, um medidor de tomada dá o número real em kWh; o artigo sobre wattímetro mostra como usar. Esses medidores têm limite de corrente: um de 10 A aguenta cerca de 1.270 W em 127 V e 2.200 W em 220 V. Ar-condicionado ligado direto na fiação, chuveiro e aquecedores grandes não passam por eles.
Jeito 4: medidores separados
Para uma edícula alugada, uma kitnet nos fundos ou uma loja no térreo, a solução definitiva é cada parte ter o seu medidor e a sua fatura. Na Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021, uma unidade consumidora tem medição individualizada, um único consumidor e um ponto de conexão. Atender mais de uma unidade no mesmo local depende dos requisitos técnicos e de segurança da distribuidora (art. 28). O pedido é o de ligação nova de energia, e a adaptação da entrada deve ser feita por eletricista habilitado.
Antes de pedir, faça duas contas:
- Cada unidade paga o seu próprio mínimo. O custo de disponibilidade equivale a 30 kWh na ligação monofásica, 50 kWh na bifásica a três condutores e 100 kWh na trifásica (art. 291). Uma kitnet que gasta 20 kWh passa a pagar pelo menos o equivalente a 30 kWh, mais a sua própria iluminação pública, conforme a lei do município.
- A obra do padrão de entrada tem custo, e ele é seu.
Um medidor particular instalado depois do medidor da distribuidora, o chamado submedidor, serve só para o acerto interno. A distribuidora continua cobrando o que marca o medidor dela, de um único titular. A leitura de qualquer um dos dois segue o que está em como ler o relógio de luz.
Quem responde se alguém não pagar
A fatura está em nome de um titular, e é ele quem responde pelos débitos daquela unidade perante a distribuidora. A Resolução 1.000 impede a distribuidora de condicionar religação, troca de titularidade ou outros serviços ao pagamento de dívida de terceiros, ou de exigir que você assine termo assumindo essa dívida (art. 346). O lado prático disso numa casa dividida: se um morador some sem pagar a parte dele, a dívida fica com o titular. Se a conta atrasar, entram multa e juros, como mostra conta de luz atrasada.
Três cuidados reduzem o problema:
- Combine por escrito o método, a data e a chave Pix, com prazo antes do vencimento.
- Mande a todos a foto da fatura e a conta da divisão no mesmo dia.
- Quando o titular se mudar, troque o nome da conta. A ANEEL diz que, em imóvel alugado ou comprado, a conta deve ir para o nome do novo morador; o passo a passo está em troca de titularidade da conta de luz.
Tarifa Social numa casa dividida
A Tarifa Social vale para uma única unidade consumidora por família, segundo a ANEEL, e a gratuidade dos primeiros 80 kWh do mês conta por família, não por morador. Numa casa em que uma família beneficiária divide o medidor com outras pessoas, os 80 kWh gratuitos aparecem na fatura inteira. O combinado entre os moradores decide quem aproveita esse valor, e é bom deixar isso claro.
Se mais de uma família com direito ao benefício mora sob o mesmo medidor, a Resolução 1.000 manda multiplicar a faixa gratuita pelo número dessas famílias (art. 179, § 3º): duas famílias, 160 kWh. Esse enquadramento, a subclasse baixa renda multifamiliar, exige visita técnica da distribuidora (art. 177, § 8º), então peça pelos canais dela. Quem tem direito está em tarifa social: quem tem direito.
Perguntas frequentes
A distribuidora pode dividir a fatura entre os moradores?
Não há previsão para isso. A fatura é da unidade consumidora e tem um titular. A norma prevê o contrário: juntar numa só fatura várias unidades do mesmo titular.
Qual o jeito mais justo de dividir a conta de luz?
Separar os aparelhos de uso individual e dividir o resto em partes iguais, como no jeito 3. Quando ninguém tem aparelho próprio pesado, a divisão igual chega a quase o mesmo resultado com menos trabalho.
Como dividir a conta de luz entre inquilino e proprietário?
Se o imóvel inteiro está alugado, a conta deve estar no nome do inquilino. Se o dono mora numa parte e aluga outra com o mesmo medidor, use o jeito 2 ou o jeito 3, ou peça medidores separados.
Devo usar R$ 0,80 ou o preço da minha fatura?
Para dividir uma conta que já chegou, use o preço efetivo da fatura, como no exemplo. O valor de referência serve para estimar o gasto de um aparelho antes de a conta chegar.
Fontes: Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021 no Diário Oficial da União, ANEEL, como resolver: principais dúvidas, ANEEL, Tarifa Social e Resolução Normativa ANEEL nº 1.147/2025, que alterou os arts. 177 e 179.