Placa solar bifacial: como funciona e quanto ela gera a mais
A bifacial também gera pela face de trás. Veja o que a ficha técnica promete, por que o ganho depende do chão e do vão, e quanto isso vale em kWh e reais.
A placa solar bifacial gera energia pelas duas faces: pela frente, com o sol direto, e por trás, com a luz refletida pelo chão e pelo entorno. Na ficha do Jinko Tiger Neo 3.0 de 670 W, a face de trás rende 85% da da frente (com variação de 5 pontos), e o módulo chega a 746 W quando recebe 135 W/m² por trás, cerca de 11% a mais. Esse ganho, porém, só aparece quando chega luz de verdade à face traseira, e num telhado comum chega pouca.
A pergunta útil, portanto, não é se a bifacial gera mais, e sim quanto ela gera a mais no lugar onde vai ser instalada. É isso que as seções abaixo ajudam a estimar.
O que muda por dentro
Uma placa comum tem uma folha opaca atrás das células. A bifacial troca essa folha por vidro e usa células que captam luz dos dois lados. Na ficha do Tiger Neo 3.0, a frente leva vidro de 2,0 mm com antirreflexo e a traseira, outro vidro de 2,0 mm, termoendurecido. As células são de silício monocristalino tipo N, com a tecnologia TOPCon.
Ou seja, bifacial não é uma alternativa ao monocristalino. É uma forma de montar o módulo, e hoje ela aparece em cima de células monocristalinas. A comparação entre as tecnologias de célula está em monocristalino ou policristalino.
Os dois números da ficha técnica
A ficha de uma placa bifacial traz dois blocos de potência.
- O bloco STC é o ensaio padrão, com 1.000 W/m² na frente e nada atrás. É o número que vai no nome do produto.
- O bloco BNPI é o ensaio bifacial, com 1.000 W/m² na frente e 135 W/m² atrás, a 25 °C.
Na linha JKM650-670N-66QL6-BDV, os dois blocos ficam assim:
| Modelo (STC) | Potência com luz traseira (BNPI) | Diferença |
|---|---|---|
| 650 W | 724 W | 11,4% |
| 655 W | 729 W | 11,3% |
| 660 W | 735 W | 11,4% |
| 665 W | 741 W | 11,4% |
| 670 W | 746 W | 11,3% |
A diferença bate com uma conta simples. A luz de trás no ensaio é 13,5% da luz da frente (135 ÷ 1.000). Multiplicada pelo fator de bifacialidade de 85%, dá 11,5% de potência a mais. É assim que se lê o fator: ele diz quanto a face de trás rende em relação à da frente, para a mesma quantidade de luz.
A Jinko informa esse fator como 85% ± 5%. Na página do produto, o fabricante também compara esse valor com a faixa de 70% a 75% que ele atribui às células BC bifaciais de outros fabricantes. Essa comparação é alegação do próprio fabricante.
Por que o ganho depende do chão
A face de trás depende da luz que o chão e o entorno refletem e da luz difusa do céu. Em instalações muito inclinadas ou verticais, com o sol baixo atrás do módulo, ela também pode pegar sol direto. O manual de engenharia fotovoltaica do CRESESB, ligado ao Cepel, chama essa refletividade de albedo e lista valores típicos:
| Superfície | Albedo |
|---|---|
| Asfalto | 0,15 |
| Solo descampado | 0,17 |
| Gramado | 0,18 a 0,23 |
| Concreto em construção urbana | 0,20 |
| Grama seca | 0,28 a 0,32 |
| Concreto novo | 0,55 |
Um albedo de 0,2 significa que a superfície devolve cerca de 20% da luz que recebe. Só uma parte dessa luz chega à face de trás da placa, e essa parte depende da altura da estrutura, do espaço entre as fileiras e da sombra que a própria placa faz no chão. Nem a ficha do fabricante nem o manual dão uma regra simples para isso. O CRESESB recomenda levantar as superfícies reflexivas próximas e usar programas de simulação que modelam o entorno.
Na prática, dá para separar três situações:
- Estrutura elevada sobre superfície clara, com vão grande embaixo, como em usinas de solo, carports e pérgolas. É onde a face de trás recebe mais luz.
- Laje com a placa inclinada numa estrutura mais alta. Depende da cor da laje e da altura.
- Placa paralela ao telhado de telha, com poucos centímetros de vão. A face de trás enxerga principalmente a telha, que está na sombra da própria placa, e o ganho tende a ficar pequeno.
Quanto isso vale em kWh e em reais
Para ter uma ordem de grandeza, considere um sistema de 3 kWp no Sudeste. Com a irradiação média de 5,07 kWh/m² por dia do Atlas Brasileiro de Energia Solar, do INPE, e a taxa de desempenho de 80% que o Atlas adota, ele gera perto de 365 kWh por mês (3 × 5,07 × 0,80 × 30).
A tabela aplica o fator de 85% a quatro proporções de luz traseira. Essas proporções são suposições para mostrar a escala, não medições de nenhum telhado:
| Luz atrás, em relação à frente | Ganho (× 0,85) | kWh a mais por mês | Valor a R$ 0,80 por kWh |
|---|---|---|---|
| 2% | 1,7% | 6,2 | R$ 4,96 |
| 5% | 4,25% | 15,5 | R$ 12,41 |
| 10% | 8,5% | 31,0 | R$ 24,82 |
| 13,5% (ensaio BNPI) | 11,5% | 41,9 | R$ 33,51 |
O valor usa R$ 0,80 por kWh, a mediana residencial das distribuidoras sem tributos, com dados da ANEEL consultados em 28/09/2026 (veja as tarifas). É uma referência, não um teto: com tributos o kWh da sua conta vale mais, e a energia que vai para a rede e volta como crédito paga uma parte do Fio B, explicada em taxação do sol e Fio B.
A conta mostra onde está a decisão. Se o orçamento da bifacial custa mais que o da placa comum, divida a diferença pelo valor mensal da linha que corresponde à sua instalação. Num telhado de telha, use as primeiras linhas, a não ser que o projetista mostre uma simulação com outro número. Para chegar ao sistema do tamanho certo, veja quantas placas solares preciso e confira o consumo da casa na calculadora.
Peso, tamanho e estrutura
O vidro duplo pesa. O módulo de 670 W da ficha mede 2.382 × 1.134 mm e pesa 32,5 kg, cerca de 12 kg por metro quadrado (32,5 ÷ 2,70 m²). A ficha informa carga máxima de ensaio de 5.400 Pa na frente e 2.400 Pa atrás.
Se a ideia é aproveitar a face de trás, a estrutura também não pode bloqueá-la. Trilhos, caixas de junção e cabos na sombra da traseira tiram parte do ganho. Quem calcula a estrutura e a fixação é o projetista, com a ficha do módulo e as condições do telhado. O assunto está em peso da placa solar no telhado, e a inclinação que vale para a frente continua valendo para a bifacial, como mostra orientação da placa solar.
O inversor precisa acompanhar
Com luz atrás, a placa gera mais corrente. No Tiger Neo 3.0 de 670 W, a corrente de curto-circuito passa de 16,22 A no ensaio padrão para 18,07 A no ensaio bifacial, 11,4% a mais. O inversor e as proteções precisam aceitar essa corrente. O projeto confere isso na ficha do inversor; a leitura dessa ficha está em inversor solar: o que é.
Garantia e vida útil
A ficha do Tiger Neo 3.0 informa 1% de perda no primeiro ano, 0,35% ao ano depois disso e 88,85% da potência ao fim de 30 anos. A conta confere: 100% − 1% − 29 × 0,35% = 88,85%. Compare esses números entre orçamentos, bifaciais ou não. A vida útil das placas em geral está em placa solar dura quantos anos.
Perguntas frequentes
Placa bifacial vale a pena no telhado de casa?
Depende do vão e da superfície atrás da placa. Com a placa paralela à telha, pouca luz chega à face traseira e o ganho tende a ficar nas primeiras linhas da tabela acima. Peça ao projetista a simulação com e sem a face traseira antes de pagar mais por ela.
Pintar o telhado ou a laje de branco aumenta a geração?
Aumenta a luz refletida: pela tabela do CRESESB, concreto novo reflete 0,55 e asfalto, 0,15. Quanto disso chega à placa depende da altura e do espaço entre as fileiras. Uma pintura clara também reduz o calor do telhado, assunto de tinta térmica para telhado.
A bifacial gera à noite ou com luz artificial?
Não de forma útil. Ela aproveita a mesma luz do sol, só que também pela face de trás.
A potência do nome é a da frente ou a soma?
É a da frente, no ensaio padrão. O ganho da face traseira aparece à parte, no bloco BNPI da ficha.
Bifacial e meia célula são a mesma coisa?
Não. Meia célula é uma forma de cortar e ligar as células, e pode existir em placas comuns ou bifaciais. Bifacial é a placa que capta luz pelas duas faces.
Fontes: JinkoSolar, Tiger Neo 3.0, JinkoSolar, ficha técnica JKM650-670N-66QL6-BDV, CRESESB/Cepel, Manual de Engenharia para Sistemas Fotovoltaicos (2014) , Sandia PVPMC, Joshua Stein, Comparison of modeling methods and tools for bifacial PV performance (2022) e INPE, Atlas Brasileiro de Energia Solar, 2ª edição.