Por que a energia fica mais cara na seca? A conta das bandeiras
Metade da luz do Brasil vem de hidrelétricas. Na seca, entram térmicas mais caras e a bandeira sobe. Veja os meses de 2024 a 2026 e quanto isso pesa na conta.
A energia fica mais cara na seca porque o Brasil depende da água para gerar eletricidade: as hidrelétricas produziram 51,2% da energia elétrica do país em 2025, segundo a EPE. Quando chove pouco, os reservatórios baixam, o sistema liga usinas termelétricas, que custam mais, e a ANEEL repassa essa diferença pela bandeira tarifária, que hoje soma de R$ 0,01885 a R$ 0,07877 a cada kWh.
Em setembro de 2026, a bandeira foi amarela, com R$ 0,01885 a mais por kWh; para outubro de 2026, a ANEEL anunciou bandeira verde, sem adicional. Abaixo está o caminho da chuva até a sua fatura, o que os últimos anos mostram e quanto a seca custou, em reais, para uma casa comum.
Da chuva à sua conta, em quatro passos
- A água enche os reservatórios. No período úmido, que a ANEEL trata como encerrado em abril, as chuvas recompõem o estoque das hidrelétricas.
- Na seca, o estoque cai. Com menos água guardada, as hidrelétricas geram menos, e o sistema precisa de outras fontes para cobrir o consumo.
- Entram as térmicas. O Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS, reavalia a operação todo mês e decide quanto vai sair das hidrelétricas e quanto das termelétricas, como as que queimam gás, carvão ou derivados de petróleo, com custo de geração mais alto.
- A bandeira repassa o custo. Com essa previsão, a ANEEL define a cor do mês seguinte. Verde não soma nada; amarela e vermelha somam um valor por kWh consumido.
Foi exatamente essa a explicação da ANEEL para manter a bandeira amarela em setembro de 2026: o período seco reduziu a geração hidrelétrica, pelo menor nível dos reservatórios, e exigiu o acionamento de termelétricas, com custo mais elevado. Para outubro, a agência atribuiu a volta da verde ao aumento das chuvas, principalmente no Sul e no Sudeste.
Antes das bandeiras, implantadas em 2015, esse custo extra também chegava ao consumidor, mas só no reajuste tarifário do ano seguinte. A ANEEL descreve a bandeira como um sinal de preço, não como uma taxa nova.
De onde vem a eletricidade do Brasil
A Empresa de Pesquisa Energética, a EPE, publica a matriz elétrica a partir do Balanço Energético Nacional. Em 2025, com 783,3 TWh de oferta interna, somando a geração nacional e a eletricidade importada, a divisão foi esta:
| Fonte | Participação em 2025 |
|---|---|
| Hidráulica | 51,2% |
| Eólica | 14,9% |
| Solar | 11,4% |
| Biomassa | 8,4% |
| Gás natural | 7,5% |
| Carvão e derivados | 2,2% |
| Nuclear | 2,0% |
| Derivados de petróleo | 1,5% |
| Eletricidade importada | 0,9% |
Metade da energia depende de chuva. As térmicas a gás, carvão e derivados de petróleo, somadas, ficaram em 11,2% do ano, mas são usinas desse tipo que o sistema aciona quando a água falta, e a ANEEL descreve o custo delas como mais elevado.
A EPE registra que a eólica e a solar vêm crescendo bastante. Ainda assim, em 2025 as duas somaram 26,3% da geração, pouco mais da metade do peso da água.
O que os últimos anos mostram
O conjunto de dados abertos da ANEEL registra a bandeira de cada mês. A versão gerada em 28/09/2026 mostra um padrão nítido desde 2024:
| Ano | Janeiro a abril | Maio a dezembro |
|---|---|---|
| 2023 | verde | verde nos oito meses |
| 2024 | verde | amarela em julho, verde em agosto, vermelha patamar 1 em setembro, patamar 2 em outubro, amarela em novembro, verde em dezembro |
| 2025 | verde | amarela em maio, patamar 1 em junho e julho, patamar 2 em agosto e setembro, patamar 1 em outubro e novembro, amarela em dezembro |
| 2026 | verde | amarela de maio a setembro, verde anunciada para outubro |
Nos três últimos anos, nenhum mês de janeiro a abril teve bandeira acima da verde. Todos os meses de vermelha caíram entre junho e novembro.
Dez anos de bandeiras
Para uma visão mais longa, agrupe os anos de 2016 a 2025 em duas metades: maio a novembro, logo depois do fim do período úmido, e dezembro a abril. A conta, feita com o mesmo conjunto de dados da ANEEL:
| Meses | Total de meses | Com bandeira acima da verde | Com vermelha ou escassez hídrica |
|---|---|---|---|
| Maio a novembro | 70 | 38 (54%) | 27 (39%) |
| Dezembro a abril | 50 | 19 (38%) | 10 (20%) |
A diferença seria maior sem a crise hídrica de 2021. A cobrança extraordinária de escassez hídrica começou em setembro de 2021 e seguiu até abril de 2022, e responde por 5 dos 10 meses caros da metade úmida. O ano ruim de chuva empurrou a conta cara para dentro da estação que costuma ser barata.
O histórico recente, mês a mês, também está na página da bandeira.
Quanto a seca custou para uma casa de 200 kWh
Veja uma casa que consome 200 kWh todo mês, com a energia a R$ 0,80 por kWh, a mediana residencial das distribuidoras sem tributos, com dados da ANEEL consultados em 28/09/2026 (veja as tarifas). Sem bandeira, a energia do ano custa 200 × 0,80 × 12 = R$ 1.920,00.
Agora some a bandeira que valeu em cada mês de 2025, com os valores em vigor desde abril de 2024:
| Bandeira em 2025 | Meses | Adicional por mês (200 kWh) | Total |
|---|---|---|---|
| Verde | janeiro a abril | R$ 0,00 | R$ 0,00 |
| Amarela | maio e dezembro | R$ 3,77 | R$ 7,54 |
| Vermelha patamar 1 | junho, julho, outubro e novembro | R$ 8,93 | R$ 35,70 |
| Vermelha patamar 2 | agosto e setembro | R$ 15,75 | R$ 31,51 |
| Ano | 12 | R$ 74,75 |
A conta do total é 200 × (2 × 0,01885 + 4 × 0,04463 + 2 × 0,07877) = R$ 74,75. É 3,9% a mais sobre os R$ 1.920,00 do ano. O peso fica concentrado nos meses secos: em agosto e setembro de 2025, os R$ 15,75 do patamar 2 somaram 9,8% à energia do mês.
Em 2026, até setembro, a mesma casa pagou amarela em cinco meses, de maio a setembro: 5 × R$ 3,77 = R$ 18,85. Outubro, com verde, não soma nada.
Duas simplificações entram nesse exemplo. A conta usa o mês do calendário, mas a fatura aplica cada cor pelos dias em que ela vigorou dentro do seu ciclo de leitura, então uma conta pode misturar duas bandeiras. E os valores ainda recebem ICMS e PIS/Cofins, porque, segundo a ANEEL, sobre a bandeira incidem os mesmos tributos da tarifa. O artigo sobre o ICMS na conta de luz mostra quanto o imposto acrescenta. Para montar o valor do kWh com a cor do mês sem contar a bandeira duas vezes, siga o guia bandeira tarifária no custo do kWh.
O que a seca não muda
- A tarifa base. A tarifa de cada distribuidora muda no reajuste anual, que tem data própria e não depende da estação. A ANEEL calcula esse reajuste supondo bandeira verde; o custo extra da seca vem à parte. Veja reajuste tarifário: como funciona.
- A cor para cada região. A bandeira é uma só para todo o Sistema Interligado Nacional. Não importa se choveu na sua cidade: vale a condição do sistema inteiro.
- Quem está fora do sistema. Consumidores atendidos por sistemas isolados, fora do Sistema Interligado, não pagam bandeira.
- Quem tem Tarifa Social. O desconto da Tarifa Social vale também sobre a bandeira. Os critérios estão em tarifa social: quem tem direito.
Quando a seca é longa e a bandeira chega ao topo, o detalhe de cada patamar está em bandeira vermelha patamar 2.
O que você controla nos meses secos
A cor da bandeira não muda se você economizar, porque ela vale para todos os consumidores. O que muda é quanto ela pesa na sua fatura: a cobrança é por kWh, então cada kWh evitado tira da conta a tarifa e o adicional juntos. No patamar 2, com a energia a R$ 0,80, cada kWh evitado vale R$ 0,87877 antes dos tributos.
Os meses de maio a setembro incluem o inverno, quando o chuveiro vai para a posição mais quente. As dicas para essa época estão em como economizar energia no inverno. Para achar os aparelhos que mais pesam na sua casa, veja aparelhos que mais gastam energia e simule na calculadora, somando ao kWh o adicional da cor do mês.
Se a conta subiu num mês seco, não culpe só a bandeira. Compare o consumo em kWh com o do mesmo mês do ano anterior, como ensina o guia usar o histórico de consumo da conta. No exemplo acima, a bandeira mais cara acrescentou R$ 15,75 a uma conta de 200 kWh; um aumento maior que isso costuma vir do consumo, do número de dias do ciclo ou dos tributos.
Perguntas frequentes
Por que a conta de luz sobe no segundo semestre?
Porque é quando o período seco já esvaziou parte dos reservatórios e as térmicas entram. De 2023 a 2026, todos os meses de bandeira vermelha ficaram entre junho e novembro.
A bandeira é a mesma no país inteiro?
Sim, para quem está ligado ao Sistema Interligado Nacional. A exceção são os consumidores de sistemas isolados, que não pagam bandeira.
Quando a ANEEL anuncia a bandeira do mês?
No fim de cada mês, para o mês seguinte. A bandeira de outubro de 2026 foi anunciada em 25 de setembro.
Se chover muito, a conta fica mais barata?
Ela volta à bandeira verde, sem adicional, mas a tarifa base continua a mesma até o próximo reajuste. Chuva não gera desconto abaixo da verde.
A bandeira incide sobre o consumo mínimo?
Sim. Segundo a ANEEL, a bandeira também incide sobre o custo de disponibilidade, o piso que a casa paga mesmo consumindo pouco. O guia do custo de disponibilidade explica esse piso.
Fontes: EPE, Balanço Energético Nacional 2026, capítulo 1, ANEEL, bandeiras tarifárias, ANEEL, perguntas e respostas sobre bandeiras tarifárias, ANEEL, dados abertos, acionamento das bandeiras tarifárias, Agência Brasil, bandeira permanecerá amarela em setembro, Agência Brasil, conta de luz voltará à bandeira verde em outubro, EPE, matriz energética e elétrica.